Seis dias na Serra Gaúcha

Durante a última semana, embarquei, junto com Paulo Prado, enófilo carioca e criador do site Vinopaedia (ainda em construção) em um projeto ambicioso; Elaborar uma espécie de documentário, com o objetivo de encurtar a distância entre produtor e consumidor final. Na minha opinião, quem vê um vinho em uma prateleira, normalmente não “enxerga” a pessoa que elaborou o produto, vê apenas um rótulo e uma etiqueta de preço, em uma relação totalmente impessoal. Queremos mostrar que o vinho tem uma face, e é elaborado por pessoas como nós (ou quase). Este projeto é uma parceria entre o Notas de Degustação e o Vinopaedia.

Resumidamente, temos mais de oito horas de vídeos com entrevistas, depoimentos, paisagens, etc. Após a edição, teremos um registro de algumas pessoas que trabalham com vinho e sua paixão. Tudo sem afetação, sem música clássica, sem frescura. Viajamos, como sempre, com recursos próprios; Ao final de seis dias, tínhamos percorrido mais de mil e quinhentos quilômetros, dormido em média cerca de 5 horas por noite e assimilado muito mais informação do que poderíamos imaginar. Foi extremamente cansativo, tanto fisicamente como psicologicamente, mas valeu a pena.

Deixo aqui, com exclusividade para os leitores do Notas de Degustação, as minhas impressões sobre algumas vinícolas visitadas:

Cordelier: Grande surpresa, logo na primeira visita. Não provava vinhos deste produtor desde 2004, e o salto qualitativo foi impressionante. Destaque para a linha reserva, tanto o Cabernet Sauvignion quanto o Merlot, e para o espumante método champenoise Brut. Um lançamento bastante interessante é um vinho fortificado, de corte bordalês, que passa dois anos em madeira, o Don Ziero Vintage 2002. O vinho promete, apesar de ainda ter o álcool muito destacado e madeira pouco integrada. Uma década de guarda certamente resolveria estas arestas, mas infelizmente o vinho foi engarrafado com rolha técnica (como em um tawny ou rubi mais simples, por exemplo), feita de aglomerado e curta demais para grandes guardas, o que é uma pena, pois o vinho parece ter bom potencial.

Lídio Carraro: Fomos atendidos cordialmente pelo Juliano Carraro e família, que mesmo sob pressão, devido à preparação para a ida a Expovinis, nos concedeu uma entrevista exclusiva. Provamos um Chardonnay 2008 ainda em tanque, muito frutado e intenso no nariz, com grande intensidade e frescor na boca. Outra amostra de tanque surpreendente é o Nebbiolo 2008, com uma explosão de frutas e flores no nariz e grande potência e equilíbrio na boca. O vinho me surpreendeu tanto que logo em seguida comprei uma garrafa do 2005.

Torcello: Grata surpresa; um novo empreendimento dirigido por Rogério Valduga, com uma proposta de produzir vinhos para gastronomia, com teor alcoólico máximo de 12%, refletindo a identidade da região. A produção anual é de 10.000 garrafas e são elaborados vinhos de Tannat, Merlot e Cabernet Sauvignon . Destaque para o Merlot, com suas notas florais, concentração e tanicidade, além do Tannat, de aromas muito frutados e limpos no nariz, com uma pureza e doçura de fruta na boca que reflete fielmente a Tannat daquela região. Também elaboram um suco de uva 100% natural, sem aditivos que é simplesmente fantástico.

Vallontano: É gratificante observar a evolução do Cabernet Sauvignon Reserva 2005, que provei ano passado, com a fruta despontando e madeira mais integrada; um vinho muito elegante, de estilo francês. Pena que como eu já havia comentado, possivelmente a maior parte dos vinhos da Vallontano será bebida antes de chegar a seu máximo. De novidades temos um Chardonnay 2008 sem passagem em madeira, que provarei em breve. A vinícola se desfez dos barriques antigos e investiu em novas barricas francesas Seguin Moreaux, o que indica que vem coisa muito séria por aí.

Miolo: Essencialmente nos apresentaram a mesma coisa que em setembro de 2007, com a indefectível apresentação de power point inclusa. Existem algumas novidades a caminho, como um Pinot Noir RAR, um Merlot da Serra Gaúcha fermentado em barrique e um Cabernet Sauvignon, de Candiota, também fermentado em barrique. Como sempre, a pessoa que nos conduziu durante a visitação não nos concedeu provas de tanque, barrique ou garrafa. Sendo assim, tivemos que nos contentar com os “lançamentos”. Destaque para o Quinta do Seival 2005 Cabernet Sauvignon, que mostra excelente qualidade de fruta, apesar de estar praticamente soterrado por carvalho. Outro produto que promete é o Castas Portuguesas 2005, que mostra muita fruta escura e flores, envolvidas por notas de carvalho francês que conferem elegância e harmonia, apesar de ainda um pouco rústico na boca. Vai substituir o 2004, que basicamente é creme brulée puro. O espumante Milesime também mostra excelente qualidade aromática de fruta, denotando um grande cuidado com a matéria prima. Infelizmente todo este trabalho é arruinado por uma dosagem excessiva de açúcar, deixando o produto extremamente enjoativo. Sempre que indagado sobre excesso de madeira ou açúcar, o enólogo invariavelmente respondia “é o mercado que pede”, demonstrando claramente que alguém na Miolo está idealizando um consumidor que não existe. Não vou me estender mais, porque certamente a Miolo conta com consultores que entendem bem mais do que eu e deve saber exatamente o que está fazendo.

Cave Geisse: Tivemos a oportunidade de encontrar com o Mario Geisse em pessoa, que nos apresentou os vinhedos e instalações. Também recebemos mais detalhes sobre o projeto em Champagne. O projeto de Champagne é o primeiro de uma série, outras regiões vinícolas estão em estudo. Dos espumantes, destaco novamente o Rosé Pinot Noir, que 6 meses após o degourgement volta a mostrar notas típicas de pinot noir, com um floral intenso e notas de mirtilo. A Terroir ainda está muito jovem, sutil, mineral e fresca, mas promete ganhar profundidade e complexidade com a guarda. Provamos dois vinhos base da safra 2008, o Pinot Noir e o vinho que se tornará a nova Terroir. Muita pureza de fruta, nitidez, intensidade e acidez, o que é promissor.

Casa Valduga: Provavelmente possui a mais completa linha de espumantes, e como a supracitada Cave Geisse, consegue manter uma coerência de estilo, desde os espumantes mais simples até os top. Destaco o Excelence Extra Brut 2002, com suas notas de brioche e pecan caramelizada, mas pessoalmente prefiro o Nature 2002, mais seco, austero, mineral. O novo 130 anos ainda está muito jovem; foi elaborado com vinhos da safra de 2005 e anteriores, precisando de um par de anos em garrafa até chegar ao seu auge. Mesmo a linha mais simples, a Alto Vale Brut, é uma bela compra a 20 e poucos reais. O rosé de Malbec, chamado Amante, é bastante interessante.

Vinha Solo: Marco Danielle, dois sócios, um vinhedo em Campos de Cima da Serra e a mesma técnica de elaboração dos vinhos Tormentas, só que desta vez em grande escala e com maceração à frio: os cachos colhidos são estocados em câmara fria e chegam à mesa de trabalho, para serem desgranados à mão a cerca de 1ºC, entrando nos tanques de fermentação a cerca de 4ºC, permitindo um retardamento no início da fermentação e uma maior extração de cor, o que pode ser percebido durante as provas de tanque. Foram vinificados lotes de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot. Me chamou atenção um corte de Merlot/Cabernet Franc; já Marco Danielle aposta no vinho 100% Cabernet Franc. Os vinhos se apresentam limpos, bem vinificados, e com o estilo de vinificação mais em evidência do que propriamente um gosto de terroir. Identifiquei vinhos com a proposta do Marco Danielle, mas provei os vinhos em uma etapa muito precoce da vinificação, ou seja, estes vinhos vão mudar muito até chegarem ao mercado, e possívelmente apresentarão também características do vinhedo. Imagino que estes vinhos estejam disponíveis no mercado ainda este ano, a preços menores que os vinhos Tormentas, de produção muito restrita. Aliás, o projeto Tormentas continua, mas infelizmente não tivemos tempo para visitar o atelier em Canela.

Bettú: É difícil relatar uma visita ao Vilmar Bettú; mais fácil é vivenciar. Provamos cerca de dez amostras de vinho, entre elas um Chardonnay 2008, que talvez sirva como base para um espumante, talvez passe por um barrique. Em termos de estrutura, é um meio termo entre o Chardonnay 2005 e o 2006; sendo que este último, sem madeira, está evoluindo muito bem, e começando a apresentar uma mineralidade bastante interessante. O Chardonnay 2005 é um exagero de vinho; os aromas podem ser percebidos a cerca de 15cm de distância do copo. Bebemos também um rosé de merlot 2008 que é Provence puro no nariz, com notas florais intensas, boa acidez, fruta fresca e limpa e boa estrutura. Outro destaque é um inusitado corte de Malbec e Barbera, onde a doçura da Malbec e sua explosão de violetas é complementada pela acidez da Barbera. Muitas notas de chá verde, jasmim, rosas e cerejas. Segundo o Paulo, um vinho japonês, seja lá o que isto signifique.

Para concluir, gostaria de informar que o artigo que escrevi anteriormente, chamado “O início do Fim” foi escrito antes de minha visita à Serra Gaúcha. Continuo convicto que o mercado de vinhos no Brasil vai passar por grandes mudanças, mas ao ver o trabalho dedicado e a humildade de pequenos (e alguns grandes) produtores, voltei para casa bem mais otimista com relação ao futuro do vinho no Brasil.

 

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